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A possibilidade de cura e redenção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.15

Ontem revi na RTP Memória The Naked Spur que já está a navega neste rio. Um dos filmes que revi mais vezes. É um Anthony Mann e é um James Stewart. E são aquelas montanhas que me lembram outras montanhas... E aquele rio caudaloso, como o rio sem regresso...

É, pois, com estas personagens que vou manter este rio a navegar sem saltar 2015. Personagens que se vão juntando por um objectivo comum, um objectivo material, receber uma recompensa. Nenhum se questiona sobre as implicações desse objectivo, uma cabeça a prémio. A não ser o próprio, o foragido, e a rapariga que o acompanha.

O filme vai-se construindo à volta das personagens e dos seus diferentes desejos: o rancheiro que sonha recuperar o rancho perdido; o velho no rasto do ouro; o jovem irrequieto e delinquente; o foragido oportunista e amoral; e a jovem altruísta.

Há um caminho a percorrer e há pausas para descansar. Tal como na vida, as peripécias sucedem-se, os contratempos, mas também as descobertas.

Uma a uma, as personagens vão ficando pelo caminho. Até restarem apenas duas.

A maior descoberta: é preciso começar de um outro ponto de partida. Começar tudo fresco. Sem memórias a persegui-las. Califórnia é um bom destino.

 

Os westerns de John Ford e Anthony Mann são muito mais do que simples histórias de cowboys, rancheiros e índios. São histórias humanas, à dimensão humana. Podiam desenrolar-se num qualquer outro cenário. E são intemporais. A violência, a ganância, a sobrevivência, são actuais. E, com sorte, também a possibilidade de cura e redenção.

 

 

 

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publicado às 20:19

A vida, através dos filmes, a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.13

Este rio sem regresso já trouxe muitos filmes consigo mas é da vida que trata. A vida é que sobressai em tantos filmes...

Já o disse aqui que no cinema prefiro o que é verosímil, próximo da realidade. A fantasia delirante não me atrai, embora lhe possa reconhecer valor artístico e cinematográfico. É a realidade que me seduz, a vida, a experiência, as emoções, os sentimentos, um percurso, um caminho, as consequências de cada decisão e de cada escolha, os imponderáveis, as surpresas, os encontros e desencontros, as expectativas.

 

Alguns filmes trazem-nos a vida lá dentro, nas personagens sobretudo, na forma como encaram as situações, como se adaptam ou  modificam as suas circunstâncias, por vezes adversas, como enfrentam os desafios. Digamos que há filmes inspiradores. Tal como os livros, só que com vozes lá dentro, os sons e os silêncios, os risos e as lágrimas, e por vezes os lugares, as árvores, as cidades, as atmosferas. É essa a possibilidade do cinema que destaco e registo na alma, a densidade de uma atmosfera. 

Para tudo isto acontecer - e tantas vezes é a sorte de felizes encontros -, entra um grupo de pessoas, o guionista, o realizador, o produtor, o director de fotografia, os actores, o compositor, e sabe-se lá mais que influências, que conversas, que trocas de ideias, cada um a colocar um pouco de si próprio no trabalho final. 

Mas é ainda ao realizador e ao seu olhar único sobre uma ideia, um guião, que podemos atribuir a atmosfera única de cada filme, é esta a minha convicção. O seu olhar prevalece, mesmo que trabalhe em equipa como parece ser a tendência actual. Já lá vão os tempos de realizadores autocráticos como o Hitchcock ou maníacos como Orson Welles. E tantos outros génios do Cinema.

 

Já aqui fiz um dia um apanhado das décadas de Cinema a navegar neste rio. Hoje deixo aqui uma actualização, não apenas por décadas de Cinema mas também pelos realizadores mais representados:

 

A 1ª década de 2000 continua a mais representada com 37 filmes. Além dos referidos na altura, gostaria de destacar que, destes apresentados mais recentemente, o tema central é a violência. A sua natureza original na própria família e cultura de grupo, no incómodo e angustiante O laço Branco. A violência silenciada e aceite na reviravolta política da África do Sul em Disgrace. Uma outra forma de violência, a indiferença, mais grupal e das organizações do que a individual, em Babel. Indiferença, distância emocional e frieza nas empresas actuais e na forma como se descartam de recursos humanos em Nas Nuvens. A violência da guerra, neste caso a do Iraque, mas pode aplicar-se a todas as guerras, em Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone). A violência e o caos generalizado numa projecção num futuro não muito distante em Children of Men.

Para nos consolar de tanta violência, só mesmo o humor de Woody Allen em A Maldição do Escorpião Jade, Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works).

De destacar ainda a mudança de perspectiva de um homem de meia idade: um, sobre o balanço da sua vida em As Confissões de Schmidt, o outro, o desafio que é lidar com a genica de um grupo de senhoras idosas, em Pranzo di Ferragosto.

 

A década seguinte mais representada é a dos anos 50 com 29 filmes. Além dos já aqui referidos, estes são todos magníficos: mais um William Wyler, Desperate Hours, mais um Anthony Mann, The Tin Star, mais um Douglas Sirk, Written in the Wind, um Billy Wilder, Sunset Boulevard, e um Robert Wise, Executive Suite.

 

A seguir, com 21 filmes, a década de 90, com mais este Jerry McGuire, e com 17 filmes, a década de 80, com mais estes Finnegan e O Turista Acidental.

 

A década de 40 não está mal representada apesar de tudo. São 13 filmes no total, acrescentados mais um Hitchcock, Rebecca, e um King Vidor, The Fontainhead.

 

As décadas menos representadas mantêm-se a de 60, com 9 filmes, a de 70 com 7, e a de 30 com 5, já apresentados na altura.

 

Quanto a realizadores, os mais representados e referidos são: John Huston com 6 filmes e referências a filmes, Steven Spielberg com 5, Frank Capra e Woody Allen com 4, William Wyler e Alfred Hitchcock com 3, John Ford, Joseph Mankiewicz, Elia KazanDouglas Sirk, Anthony Mann, Ingmar Bergman e Robert Wise com 2.

 

Estes são os grandes, entre outros, realizadores, numa época em que a realização era uma arte original, a desbravar caminhos, a experimentar planos e sombras, a adaptar a narrativa à linguagem própria do cinema, e a  escavar mais fundo na alma humana, no seu lado luminoso e no seu lado mais negro.

Hoje o Cinema tem outros desafios, pode escolher a maior simplicidade e naturalidade ou a maior complexidade e artificialidade, pode jogar, simular, cortar e colar, num ritmo muito mais veloz e adaptado ao tempo actual, sincopado e ansioso, por vezes ansiógeno.

 

Mas estes realizadores, entre outros, são muito mais do que pioneiros numa arte e numa linguagem única, imagem, movimento e som. Criaram uma atmosfera única, um olhar completamente novo, a frescura de todos os inícios e descobertas.

 

Para animar os Navegantes deste rio, e como síntese de homenagem a todos os realizadores que aqui navegam também, aqui fica uma cena de Manhattan com um dos pares que melhor funcionaram nos diálogos da comédia woodiana. Manhattan, como já repararam, é um dos meus filmes preferidos. Uma boa navegação... e não se deixem desviar por nevoeiros...

 

 

 

 

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publicado às 23:16

O ponto de vista do morto, num filme de John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.10

 

Um homem que sempre viveu no território da lei do mais forte, a que aprendeu a adaptar-se e a nele sobreviver, ser surpreendido por um forasteiro formado em leis, que tinha sido abandonado quase morto por tentar defender uma dama, de um bandido temível e temido, Liberty Valance...

... sim, um homem assim ser confrontado com um idealista que acredita convictamente que é possível viver num mundo regido pela lei e pela ordem, pelos argumentos da palavra e não da arma...

... e não ser só isso, o facto deste forasteiro lhe vir alterar as ideias sobre as leis do mundo, foi sobretudo vir alterar-lhe os planos futuros... a Hallie apaixonar-se por ele... era quase inevitável, esta mania das mulheres serem maternais, protectoras... e terrivelmente românticas, aquela de ter arriscado a pele por uma dama... mas ele, por exemplo, pela Hallie, arriscaria tudo, tudo... será que ela não sabia isso?

É claro que sabia, vinha logo recorrer à sua ajuda providencial sempre que o forasteiro corria perigo. E o forasteiro tinha a terrível mania de se colocar em situações de perigo, como aquela de desafiar o Liberty Valance.

Mais uma vez salvei o forasteiro, mas só pela Hallie, tudo pela Hallie... vê-la assim inclinada sobre ele, solícita, só porque tinha um braço ferido... e o meu coração? Não viu ela, a ingrata, o meu coração a sangrar? Vá-se lá entender as mulheres, querem um homem e ficam com o rapazinho.

Afogar o desgosto em whisky, que mais pode um homem fazer em semelhantes circunstâncias? Era isso ou dar um murro no rival, mas isso estava fora de questão, salvara-o não salvara? Aí decidira tudo. Estupidamente romântico, decidira acreditar na possibilidade daquele forasteiro realizar esse sonho de implementar a lei e a ordem e de fazer a Hallie feliz.

Agora a casa já não fazia sentido, a casa para a Hallie. E a dor, a dor insuportável...

Erguer-se de novo e ainda ter forças para empurrar o forasteiro, tinha de assumir as suas responsabilidades, ser um homem, aceitar a nomeação. Afinal, se ensinara a Hallie a ler, agora tinha de lhe dar assuntos legíveis. Para isso ainda teria de lhe dizer quem é que matou o Liberty Valance. Seja.

Voltarão só para o meu funeral. A Hallie não me parece muito feliz. Pálida. Oh Hallie, talvez tivesse sido melhor tê-lo deixado morrer naquele duelo suicida com o Liberty Valance... Hallie... e vem com a flor de cacto que lhe ofereci um dia. Hallie, Hallie... preferiste esse rapazinho idealista, o que é que queres? Agora tens apenas fantasmas à tua espera, doces recordações...

 

Este é o ponto de vista do morto, o nosso herói. John Ford sabe que ele é o herói, o que abdica:

- do papel de herói, do protagonismo;

- e da Hallie, por amor, idealismo ou estupidez (com John Ford nunca se fica a saber).

O herói de John Ford não fica imune à vida, a vida fere-o, trespassa-o, fulmina-o. Às vezes apenas o desilude e cansa. Outras, revolta-o e leva-o à acção. Outras ainda, surpreende-o com a felicidade.

Aqui é o primeiro caso. O nosso herói escolhe o caminho mais difícil. E nós, ao vê-lo sofrer a perda dos seus sonhos, quase desejamos que ele não seja tão insuportavelmente nobre, que ele escolha a sua própria felicidade.

É provável que na minha primeira visão deste filme, e teria os meus trinta e tal anos, tenha simpatizado sobretudo com o papel do Jimmy Stewart. O homem idealista, o homem das leis e da ordem. O homem vulnerável e sensível. Hoje, surge-me como um homem essencialmente obcecado e egoísta, mesmo sem o saber, um imaturo, a quem as coisas acabaram por correr bem.

Se a América hoje, mediada pela lei e pela ordem, é melhor? Não sei. John Ford também deve ter formado uma opinião muito particular. A lei e a ordem, indeed! Afinal, não tivera o nosso herói que disparar sobre o bandido? O que teria sido do forasteiro sem essa ajuda preciosa, a lei da arma? O que pensaria John Ford quando colocou aqui este dilema? Secretamente, agrada-me pensar que o próprio John Ford tinha sérias reservas em relação à eficácia desta lei e ordem e que teria preferido, em certas circunstâncias muito particulares, mandar a lei e ordem às malvas e assentar um murro valente em certos sujeitinhos tipo Liberty Valance. Secretamente, também confesso que um murro bem assente resolveria muitos dilemas actuais.

 

Na verdade, já vislumbrei uma outra América, infinitamente mais livre e feliz. A América primordial, onde talvez tivesse sido possível iniciar uma história diversa. Onde a diversidade fosse possível naquela vastidão imensa... Mas o homem traz consigo a doença original e esquece o seu lado sublime.

 

 

 

 

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publicado às 14:37

Os meus heróis: Robert Preston, o amigo franco e leal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.10

 

E aqui vai outro dos meus heróis, Robert Preston, o actor-personagem da franqueza mais desarmante e da amizade leal. Se o viram como eu em vários filmes devem ter reparado nesse olhar tão despido de artifícios ou sombras. Mesmo a enfrentar uma rejeição, e uma rejeição sem-cerimónias como aquela da Debbie Reynolds em How West was Won, Robert Preston não desarma, insiste com a mulher mais teimosa e arisca que tinha encontrado, que ele é que a saberá apreciar. Ainda por cima irá conhecer o seu rival e verificar que aquela mulher escolhera o homem errado, um homem que não a merece. Estas coisas acontecem, aliás estão sempre a acontecer, e não é só às mulheres, aos homens também. Desencontros, equívocos, atracções fatais.

 

Mas vamos começar pelo princípio. Porque fui eu buscar Robert Preston ao baú das memórias? Nem eu sei, mas este actor teve desde logo um efeito tranquilizante, aquele ar franco, sem artifícios, mesmo nesse insólito papel no Victor, Victoria. Nunca resisto a rever as cenas com o Robert Preston, aqui na pele de um velho drag queen, amigo leal e criativo da Julie Andrews. Desde a cena do restaurante, dois esfomeados em Paris, até ao espectáculo em que, vestido de sevilhana, canta e dança no palco. Robert Preston é o amigo das horas difíceis, criativo, divertido e generoso. Dirá sempre o que pensa, sem subterfúgios nem evasões.

 

Outro dos seus papéis mais enternecedores é muito pouco conhecido. Vi-o uma única vez na televisão, talvez nalgum ciclo dos anos 90. O próprio filme, Finnegan Begin Again, é já dos anos 80. Nele vemos um Robert Preston sessentão que se apaixona por uma mulher muito mais jovem, Mary Tyler Moore. O filme é uma magnífica inspiração para quem não quer desistir de comunicar de forma afectiva, de apoiar e ser apoiado, animar e ser animado. Encontram um no outro o apoio e o carinho. Finalmente, o Robert Preston tenta mostrar à Mary Tyler Moore que a sua diferença de idades é um problema real. A cena final foi a que registei na memória para sempre. Vemo-los deitados no chão da sala, muito descontraídos, pelo menos é assim que recordo a cena. Ele diz-lhe: Mas eu estou a cair do tripé... Ela responde: Prefiro dois anos contigo do que dez com outro homem. Se esta não é uma magnífica declaração de amor, então o que é?

 

Identifiquei-o mais recentemente num pequeníssimo papel, num filme que desconhecia e que aqui coloquei a navegar, Reap the Wild Wind. Ainda muito jovem mas já com aquela voz inconfundível.

Essa é a sua marca registada, aquela voz... uma voz grave, cantante, que nos assegura que podemos contar com ele. Uma voz assim que nos anima quando queremos desistir, que nos ajuda a ver um caminho possível. É isso que esperamos de um amigo franco e leal. Que nos ouça nas horas tardias e nos enxugue as lágrimas, como naquela magnífica cena do Victor, Victoria, quando a Julie Andrews descobre que o vestido tinha encolhido.

Ao longo destes anos de filmes tê-lo-ei visto em mais um ou dois, mas ainda não consegui identificá-los. Já corri a lista do IMDB, mas nem assim... Descobri, no entanto, que fez muita Broadway (não admira) e muita televisão (não sabia).

Robert Preston é um dos actores que me marcaram para sempre, como se fossem personagens com que interagi na vida real. O seu olhar, o seu rosto largo, e a sua voz magnífica...

 

 

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publicado às 21:39

Os melhores Realizadores são os que respeitam os espectadores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.02.09

 

Sempre vi a arte como comunicação: se  não pretende dizer nada a ninguém não é arte. Se não pretende mudar nada, não é arte. Se não pretendeprovocar uma qualquer reacção, não é arte. Com o cinema também é assim. É por isso que não coloco, no plano dos melhores, alguns Realizadores celebrizados. E mesmo que os críticos de cinema nos assegurem que o que produzem é arte, se o espectador não se sentir tocado, envolvido, provocado, assustado, comovido, não é arte, é outra coisa.


O bom Realizador não se sobrepõe ao filme, não se exibe, oculta-se. E ao ocultar-se, afirma-se. O que brilha é o tema, as personagens, a acção. E a razão do filme não é ele próprio, falar consigo próprio ou uma forma de se exibir, mas uma forma de comunicar. Não acredito no culto da personalidade. Mesmo em John Ford, o excêntrico e independente, o que se sobrepõe nos seus filmes é o seu enorme amor ao cinema, ao trabalho de equipa, ao grupo de amigos. É nisso que eu acredito.


E há muitos outros: um pavão como o Hitchcock que até aparecia fugazmente no meio dos filmes para ser identificado (o eterno suspense), e cultivava o voyeurismo, é sempre para o espectador que se dirige, sempre:brinca com o espectador, pisca-lhe o olho,provoca-o até ao limite, como um rapazinho maroto que gosta de pregar partidas.
E até o por vezes insuportável Orson Welles, esse génio perfeccionista até à exaustão, é o espectador que ele quer impressionar e deslumbrar com as suas magníficas proezas. O espectador que conseguiu assustar, ainda muito jovem, num programa de rádio.

O cinema é uma linguagem artística específica: uma imagem fixa, estática, não é cinema, é fotografia. Um longo monólogo ou um longo diálogo, não é cinema, é teatro.
A alma do cinema está no movimento, no seu ritmo, no seu bater do coração. Por isso lhe chamaram motion pictures, essa designação deliciosa... O movimento, a acção, decorre num determinado período de tempo, que tanto pode ser uma hora, como um dia, um mês, um ano ou atravessar séculos. Sendo diferente da fotografia, as imagens não podem permanecer fixas, congeladas eternamente, muito menos quando isso não se adequa ao sentido da acção ou à respiração das personagens.


Compreender a linguagem específica do cinema é interiorizar a importância da gestão do tempo. Sendo diferente do teatro, os diálogos têm de ser muito mais trabalhados e sintetizados com um timing e ritmo adequados à acção e ao tempo em que decorrem. Nalguns Resnais, os actores simplesmente prolongam os seus diálogos até desejarmos calá-los de alguma forma, de qualquer forma! Monólogos intermináveis ou diálogos pormenorizados podem matar um filme.


Podem questionar-me: e a liberdade criativa? Tudo bem, mas uma coisa é aproximar-se dessas outras linguagens artísticas, outra muito diferente é afastar-se completamente da sua própria linguagem. O cinema tem uma linguagem específica, com regras próprias, o domínio de uma técnica: movimentos de câmara, os diversos ângulos, aproximação e distância, a montagem, efeitos especiais, etc. Só a partir do domínio de uma técnica se pode passar para outros vôos. É por isso que há muito de engenhocas nesta linguagem específica. E muita paciência e atenção aos pormenores.


Sequeira Costa disse, num magnífico documentário recente na Rtp2, que um pianista tinha de ter, além de uma sensibilidade acústica fora do comum, uma sensibilidade para a Arquitectura. Que uma partitura era como uma construção complexa. Pois bem, o mesmo se passa com o cinema, só que a construção está em movimento, é móvel, como um grande cubo mágico, com um espaço e um tempo próprios, um ritmo, um equilíbrio. O cinema exige igualmente uma sensibilidade visual fora do comum: Hitchcock conseguia ver o filme todo antes de iniciar as filmagens.
Há uma acção que determina o sentido, mas também pode ser uma acção interior, uma tensão emocional, uma descarga eléctrica, uma atmosfera. E aqui podemos pensar em Elia Kazan.


Ora, só é possível transmitir tudo isto através de uma técnica, a sua base. Uma boa técnica ajuda o bom Realizador. Ter visto os clássicos, ter-se demorado pelos seus loucos inícios, a sua euforia e a sua glória, a sua loucura também, é fundamental para se ser bom Realizador. Não precisa de ver tudo mas precisa de ver atentamente. A pouco e pouco começará a distinguir o que para si é bom, mau e assim-assim. Começará a descobrir, com uma certa perplexidade, que há o bom em filmes de série B e com fraco orçamento, e que há o mau em filmes premiados e até oscarizados. Sim, aprenderá a treinar o seu próprio olhar crítico e a não basear-se nos olhares de especialistas. A partir daí está por sua conta. E já pode arriscar o seu próprio caminho, utilizando a sua própria ferramenta: inteligência, sensibilidade, técnica adquirida, criatividade e ousadia. A cada um a sua sensibilidade.


Spielberg dá-nos autênticas lições de cinema nos seus filmes, como uma síntese baseada na sua sensibilidade filosófica e visual, porque percebeu e integrou a sua linguagem específica, a sua técnica.
Sim, os melhores Realizadores respeitam os espectadores, respeitam o guião, as personagens, os actores. E aqui voltamos ao Clint Eastwood. Todos os actores que com ele trabalham dizem isso mesmo: há um clima acolhedor; mantém um bom ritmo nas filmagens; não exige muitos takes porque se organiza previamente muito bem e sabe o que quer; e consegue transmitir a sua ideia aos actores e aos restantes elementos da equipa.

 

 

 

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publicado às 23:04

Steinbeck e John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.08

 

As Vinhas da Ira.A fotografia, aquele contraste a preto e branco, em planos impossivelmente poéticos e dramáticos… é o que retive da primeira parte do filme. A casa vazia, os campos abandonados, a seca…

Toda a viagem forçada rumo a oeste, a família deslocada na busca desesperada da sobrevivência… A dignidade humana, mesmo nas maiores privações e dificuldades.

E aquela mãe. A mãe que transforma a dor em força, que está, que permanece, que não desiste. A mãe que abraça, que conforta, que anima.

É todo o povo americano que aqui é lembrado por John Ford, todo o seu sofrimento e coragem. É um poema à dignidade de homens e mulheres que tudo perderam menos a sua humanidade.

É toda a atmosfera da Grande Depressão. Com aqueles planos, aqueles contrastes, que são simplesmente de tirar o fôlego. Como John Ford consegue aquela atmosfera a preto e branco… é um verdadeiro mistério.

 

 

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publicado às 15:53


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